✦ CAPÍTULO 2 

Depois de alguns minutos no salão — música alta, luzes a piscar como se tivessem vida própria, máscaras de todos os formatos, risos que se misturavam com o cheiro doce das flores — Joana sentiu o peito apertar.

Não era medo. Não era pânico. Era… demasiado.

Precisava de ar.

Empurrou a porta de vidro e saiu para o terraço.

O terraço era o lugar mais bonito da Academia: a balaustrada de pedra abria-se para uma vista impossível — o mar ao longe, a cidade iluminada, o vento a dançar entre as trepadeiras como se também estivesse mascarado para a festa.

E ali, encostada à balaustrada, estava uma ardósia grande, apoiada num cavalete. Parte do evento de S. Valentim: cada aluno podia escrever uma frase sobre o amor.

No topo, alguém tinha escrito:

O AMOR É:

Joana aproximou-se. Pegou no giz. Respirou fundo.

E escreveu:

O AMOR É TÃO CEGO QUE AINDA NÃO ME VIU.

Ela deu um passo atrás.

E ouviu um riso.

Baixo. Quente. Divertido. Daqueles que fazem cócegas no estômago.

Joana virou-se tão depressa que escorregou na pedra lisa.

— Ai! — exclamou.

Um braço forte saiu de trás da trepadeira e segurou-a pela cintura.

— Calma — disse uma voz masculina, firme e suave. — Eu tenho-te.

Joana levantou os olhos.

E viu-o.

Um jovem alto, disfarçado de príncipe. Alto mesmo — daqueles que obrigam qualquer pessoa a levantar o queixo para conseguir ver o rosto. E Joana, baixinha e fofa dentro do seu fato de fada, com as asas a tremerem levemente atrás de si, sentiu-se ainda mais pequena… e estranhamente protegida.

A presença dele era tranquila, segura, quase luminosa. E o perfume — discreto, fresco, com um toque amadeirado — envolveu-a como uma brisa quente que não pedia permissão para ficar.

Ela não fazia ideia de quem ele era. E isso tornava tudo ainda mais perigoso.

Ele ainda tinha a mão na cintura dela.

— Desculpa — disse ele, rindo baixinho. — Eu juro que não estava a espiar. Só… estava aqui antes.

Joana tentou recuperar o equilíbrio, a dignidade e a capacidade de falar — não necessariamente por esta ordem.

— Eu… eu pensei que estava sozinha.

— Eu também — disse ele, com humor suave. — Até que o amor me cegou… e me trouxe até aqui.

Joana corou por trás da máscara. O que era injusto, porque a máscara devia protegê-la dessas coisas.

— Não devias ter lido…

— Devia. — Ele olhou para a ardósia. — É a melhor frase que já vi sobre o amor.

Ela desviou o olhar.

— É só uma brincadeira…

— Não parece. — Ele inclinou a cabeça, e Joana reparou como a luz refletia na mascarilha dele. — Parece verdade. E… muito tua.

Ela engoliu em seco.

— E tu? — perguntou. — O que escreverias?

Ele pegou no giz. Olhou para ela. E escreveu:

O AMOR É O MOMENTO EM QUE TU QUASE CAÍSTE E EU QUASE TE PERDI.

Joana ficou sem ar.

Ele pousou o giz. Virou-se para ela.

— Mesmo sem saber quem és.

E a noite começou ali.

O príncipe estendeu a mão.

— Vem. Só uma dança. Sem nomes. Sem rostos. Só… nós.

Joana hesitou.

Mas a máscara dava-lhe coragem — como se lhe emprestasse uma versão dela que sabia respirar no meio da luz, da música e da multidão.

Ela colocou a mão na dele.

Voltaram ao salão.

A música era lenta, envolvente, quase mágica. As luzes refletiam nas máscaras como pequenos planetas em órbita. Os outros dançavam, mas Joana e o príncipe estavam num mundo só deles.

Ele pousou a mão na cintura dela. Ela pousou a mão no ombro dele.

E dançaram.

Sem esforço. Sem pensar. Como se o corpo soubesse antes da mente.

Foi então que Joana percebeu a presença dele — tranquila, segura, quase luminosa. Ele era muito mais alto do que ela. E ela, baixinha e fofa dentro do seu fato de fada, com as asas translúcidas a mexerem-se ao ritmo da música, parecia uma pequena constelação a dançar com um planeta maior.

O príncipe inclinou-se ligeiramente, como quem se aproxima de um segredo.

— Cheiras… maravilhosamente bem. — murmurou ele. — O teu perfume é delicioso.

Joana sentiu as faces aquecerem — tão rápido, tão forte — que até por trás da máscara ele deve ter percebido.

— Oh… deve haver mais pessoas a usar o mesmo perfume que eu.

Ele sorriu, aquele sorriso tranquilo que parece saber mais do que diz.

— Não. O teu é único.

Ela piscou os olhos.

— Único?

— Sim. — respondeu ele, com uma voz que parecia feita de vento e certeza. — O perfume muda em cada pessoa. O ADN altera o cheiro, transforma-o. Mesmo que alguém use o mesmo frasco… nunca cheira igual.

Joana baixou o olhar, tímida, as faces tingidas de vermelho por trás da máscara.

— Então… achas mesmo que o meu é… bom?

Ele aproximou-se um pouco mais, sem invadir, apenas existindo perto dela como se fosse natural.

— Não é só bom. — disse ele, com suavidade. — É… mágico. Cheiras a gardénias. Mas não é só isso. Há algo no teu cheiro que eu não sei explicar. Como se fosse feito de memória e sonho ao mesmo tempo.

Joana prendeu a respiração.

Ele continuou, quase num sussurro:

— É o tipo de cheiro que faz alguém querer ficar… exatamente aqui.

Ela sorriu — um sorriso pequeno, tímido, mas tão verdadeiro que parecia acender o ar à volta deles.

Ele sorriu também.

E então reparou nas asas.

— És uma fada… — disse ele, com espanto genuíno. — Faz sentido. Há algo em ti que parece… leve.

Joana engoliu em seco.

— Sou só… eu.

— Não. — Ele abanou a cabeça, com uma certeza tranquila. — És alguém que não quer ser vista… mas que merece ser encontrada.

Ela sentiu o coração bater mais depressa.

Ele aproximou o rosto apenas o suficiente para que ela sentisse o perfume dele — fresco, amadeirado, com um toque quente que parecia combinar com a noite.

— Sabes… — disse ele, baixinho. — Acho que já te vi antes.

Joana congelou.

— Não podes ter visto. — murmurou. — A máscara…

— A máscara esconde o rosto. — respondeu ele. — Mas não esconde a forma como alguém existe no mundo.

Ela ficou sem palavras.

Ele sorriu, como quem promete que não vai insistir… mas também não vai esquecer.

E a noite ficou perfeita.




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