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  CAPÍTULO 3 Lorena atravessava o salão com o olhar atento. A música, as luzes, os risos — tudo aquilo era o seu habitat natural. Mas não o de Joana. E Joana tinha desaparecido. Lorena, apesar de ser uma modelo famosa , habituada a câmaras, flashes e multidões, nunca quis que a sua fama caísse sobre a irmã como uma sombra. A mãe delas — luso britânica , elegante, reservada, sempre dividida entre Londres e Lisboa — tinha ensinado às duas que cada pessoa devia encontrar o seu próprio palco. Lorena encontrou o dela cedo. Joana… nunca quis palco nenhum. E agora… Joana estava algures no salão, mascarada, vulnerável, e Lorena não a via. — Onde é que ela se meteu…? — murmurou, inquieta. Isabel aproximou-se, ainda a recuperar o fôlego da dança. — Lorena! — disse ela, apontando discretamente para o centro da pista. — Olha ali. Lorena seguiu a direção do dedo. E viu. Joana. A sua irmã tímida, discreta, que fugia de câmaras como quem foge de tempestades. A irmã que recusava entrevistas, r...
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  ✦ CAPÍTULO 2  Depois de alguns minutos no salão — música alta, luzes a piscar como se tivessem vida própria, máscaras de todos os formatos, risos que se misturavam com o cheiro doce das flores — Joana sentiu o peito apertar. Não era medo. Não era pânico. Era… demasiado . Precisava de ar. Empurrou a porta de vidro e saiu para o terraço. O terraço era o lugar mais bonito da Academia: a balaustrada de pedra abria-se para uma vista impossível — o mar ao longe, a cidade iluminada, o vento a dançar entre as trepadeiras como se também estivesse mascarado para a festa. E ali, encostada à balaustrada, estava uma ardósia grande, apoiada num cavalete. Parte do evento de S. Valentim: cada aluno podia escrever uma frase sobre o amor. No topo, alguém tinha escrito: O AMOR É: Joana aproximou-se. Pegou no giz. Respirou fundo. E escreveu: O AMOR É TÃO CEGO QUE AINDA NÃO ME VIU. Ela deu um passo atrás. E ouviu um riso. Baixo. Quente. Divertido. Daqueles que fazem cócegas no estômago. Joana v...
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✦ CAPÍTULO 1 Lorena entrou no quarto da irmã como quem invade um castelo: decidida, brilhante e já com a arma do crime na mão — uma máscara prateada que parecia ter sido roubada a uma fada distraída. — Joana… — começou ela, naquele tom que só as irmãs mais velhas dominam, uma mistura de carinho, ameaça e teimosia. — Hoje vens comigo. Não aceito um “não”. Joana suspirou como quem carrega o peso de todas as tragédias da humanidade… e também o peso de ser filha de pais que estavam, naquele preciso momento, em Londres a tratar de negócios do hospital privado que dirigiam. Pais ocupados, ausentes, mas sempre presentes na forma de expectativas silenciosas. — Lorena… eu não quero ser vista. — Então não sejas. — Lorena pousou a máscara no colo dela com a solenidade de quem entrega uma relíquia. — Usa isto. Ninguém vai saber quem és. Nem eu, se te perder na multidão. Joana olhou para a máscara. Era linda. Prateada. Delicada. Com pequenos brilhos que pareciam pó de estrelas… ou glitter barato, ...