CAPÍTULO 3
Lorena atravessava o salão com o olhar atento.
A música, as luzes, os risos — tudo aquilo era o seu habitat natural. Mas não o de Joana.
E Joana tinha desaparecido.
Lorena, apesar de ser uma modelo famosa, habituada a câmaras, flashes e multidões, nunca quis que a sua fama caísse sobre a irmã como uma sombra. A mãe delas — luso britânica, elegante, reservada, sempre dividida entre Londres e Lisboa — tinha ensinado às duas que cada pessoa devia encontrar o seu próprio palco. Lorena encontrou o dela cedo. Joana… nunca quis palco nenhum.
E agora… Joana estava algures no salão, mascarada, vulnerável, e Lorena não a via.
— Onde é que ela se meteu…? — murmurou, inquieta.
Isabel aproximou-se, ainda a recuperar o fôlego da dança.
— Lorena! — disse ela, apontando discretamente para o centro da pista. — Olha ali.
Lorena seguiu a direção do dedo.
E viu.
Joana. A sua irmã tímida, discreta, que fugia de câmaras como quem foge de tempestades. A irmã que recusava entrevistas, recusava convites, recusava tudo o que cheirasse a fama — porque a fama de Lorena era uma sombra que ela nunca pediu.
A dançar.
Com um jovem alto, atraente, disfarçado de príncipe. E a sorrir.
Um sorriso tão feliz, tão raro, tão puro… que fez o coração de Lorena apertar de emoção.
— Ela está a divertir-se… — murmurou Lorena, quase sem acreditar. — Finalmente. — disse Isabel, com um sorriso cúmplice.
Antes que Lorena pudesse aproximar-se, a banda parou a música.
O vocalista ergueu o microfone.
— Quem se atreve a cantar conosco? Um dueto de S. Valentim! Máscaras obrigatórias!
O salão explodiu em risos e aplausos.
Leandro virou-se para Joana.
— Vamos?
Ela piscou, assustada.
— Eu?
— Nós.
Joana sentiu o coração bater descontrolado. Mas a máscara escondia tudo o que ela temia mostrar. E Leandro olhava para ela como se a escolha fosse natural.
— Tens alguma música preferida? — perguntou ele, baixinho.
Joana engoliu em seco.
— Tenho… mas é romântica. — Perfeita. Qual é?
Ela respirou fundo.
— “You Are The Reason”… a versão de dueto.
Os olhos dele brilharam por trás da máscara.
— É linda. E é perfeita para nós.
Joana sentiu as faces tingirem de vermelho — mesmo por trás da máscara.
Ele ofereceu-lhe a mão.
— Então vamos cantar a tua música.
Subiram ao palco improvisado. As luzes eram suaves, quase etéreas. As máscaras escondiam tudo o que não era essencial.
A banda começou a tocar.
Leandro cantou primeiro — a voz dele era quente, segura, envolvente. Joana entrou logo a seguir — não como segunda voz, mas como igual. A voz dela era doce, clara, emocional, e encaixava na dele como se tivessem sido feitas para se encontrar.
Quando chegaram ao refrão, cantaram juntos. As vozes subiram, cruzaram-se, tocaram-se no ar. Nenhum deles dominava. Nenhum deles seguia. Eram dois — completos, equilibrados, perfeitos.
Lorena levou a mão ao peito.
A irmã estava… Linda. Solta. Viva.
E, por um instante, Lorena viu nela a herança da mãe luso britânica: a sensibilidade inglesa, a delicadeza portuguesa, aquela mistura rara que fazia Joana parecer sempre feita de luz suave.
E quando as vozes deles se encontraram…
O salão desapareceu. A música desapareceu. O mundo desapareceu.
Só existiam eles.
A cantar. A rir. A sentir.
E Lorena, lá em baixo, com os olhos brilhantes, soube:
A máscara não escondia Joana. A máscara libertava Joana.
Mas noite estava a terminar. As luzes diminuíam como estrelas cansadas. As máscaras começavam a ser retiradas — revelações por todo o salão — mas eles não.
O príncipe levou Joana até ao terraço outra vez. O mesmo lugar onde tudo tinha começado. O vento parecia reconhecer os dois, passando por eles como um segredo antigo.
Ele estava nervoso pela primeira vez. Joana sentiu isso no modo como ele respirava, no modo como hesitava antes de falar.
— Antes de irmos… — disse ele, tocando na gola da camisa branca. — Quero dar-te isto.
Com cuidado, puxou duas correntes finas que estavam escondidas sob a camisa. No centro, brilhava um pequeno talismã de prata — um coração antigo, dividido em duas metades perfeitas.
Ele abriu o fecho. Separou as metades. Retirou uma corrente.
— É para ti. — disse ele, com uma sinceridade que parecia acender o ar. — Para te proteger. Para te lembrar desta noite. Para te lembrar… de mim.
Joana ficou sem palavras. O mundo pareceu ficar muito quieto, como se estivesse à espera da resposta dela.
E, por um instante, ela lembrou-se da mãe — luso britânica, elegante, sempre com aquele jeito suave de quem vive entre dois mundos. A mãe dizia que certos objetos guardavam histórias, que certos talismãs sabiam proteger melhor do que palavras. E Joana sentiu que aquele coração partido era exatamente isso: uma história que começava ali.
— Eu… não sei quem és. — murmurou ela.
O príncipe sorriu — não um sorriso confiante, mas um sorriso triste, bonito, cheio de verdade.
— Não importa. — murmurou ele. — Hoje fomos perfeitos. E isso basta.
Ele aproximou-se. Com mãos suaves, colocou o talismã no pescoço dela. A corrente fria tocou-lhe a pele, mas o gesto era quente, quase mágico.
Joana respirou fundo, com as emoções ao rubro. O coração batia como se quisesse fugir da máscara.
— Obrigada… — disse ela, com a voz a tremer.
O príncipe recuou um passo. A luz do terraço desenhou o contorno dele como se fosse uma pintura antiga.
Ele olhou para ela uma última vez.
— Fecha os olhos.
Joana hesitou… mas fechou-os.
E antes que ela desse por isso, sentiu um toque suave nos lábios — um gesto leve, quase etéreo, como se fosse um adeus feito de vento e ternura.
Quando abriu os olhos…
Ele tinha desaparecido.
O terraço estava vazio. O talismã brilhava no seu peito. E o coração batia como se tivesse acabado de acordar de um sonho.
Assim terminou a noite perfeita. A noite deles. A noite mascarada. A noite que mudaria tudo.

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