✦ CAPÍTULO 1
Lorena entrou no quarto da irmã como quem invade um castelo: decidida, brilhante e já com a arma do crime na mão — uma máscara prateada que parecia ter sido roubada a uma fada distraída.
— Joana… — começou ela, naquele tom que só as irmãs mais velhas dominam, uma mistura de carinho, ameaça e teimosia. — Hoje vens comigo. Não aceito um “não”.
Joana suspirou como quem carrega o peso de todas as tragédias da humanidade… e também o peso de ser filha de pais que estavam, naquele preciso momento, em Londres a tratar de negócios do hospital privado que dirigiam. Pais ocupados, ausentes, mas sempre presentes na forma de expectativas silenciosas.
— Lorena… eu não quero ser vista.
— Então não sejas. — Lorena pousou a máscara no colo dela com a solenidade de quem entrega uma relíquia. — Usa isto. Ninguém vai saber quem és. Nem eu, se te perder na multidão.
Joana olhou para a máscara.
Era linda. Prateada. Delicada. Com pequenos brilhos que pareciam pó de estrelas… ou glitter barato, mas o efeito era mágico, portanto ninguém precisava de saber.
E ao lado da máscara, repousava o resto do plano de Lorena: um fato de fada completo, com tecido iridescente que mudava de cor conforme a luz, um corpete suave bordado com fios prateados e, sobretudo, um par de asas translúcidas que pareciam feitas de luar solidificado. As asas eram leves, quase etéreas, e tremiam ao mínimo toque — como se tivessem vontade própria.
— Eu não quero ser famosa — murmurou Joana. — Não quero ser como tu.
O sorriso de Lorena foi bonito, mas triste. Aquele sorriso que diz “eu entendo” e “não tens hipótese” ao mesmo tempo.
— Eu sei. E eu não quero que sejas como eu. Eu só quero que sejas feliz. Uma noite. Só isso.
Joana desviou o olhar para o chão, como se ele tivesse respostas. Talvez tivesse: normalmente dizia-lhe que devia ser mais responsável, mais discreta, mais perfeita… como os pais queriam. Mas hoje o chão não opinou.
— Eu não sei divertir‑me…
Lorena ajoelhou-se à frente dela, numa posição tão dramática que qualquer telenovela a contrataria na hora.
— Então deixa-me ensinar-te. Hoje. Só hoje. Por favor.
E foi aí que a porta se encheu de gente. Os amigos surgiram como uma trupe de teatro mal ensaiada, cada um com a sua fala pronta.
— Anda, Joana! — disse Inês, já meio dentro do quarto. — Vais adorar! — garantiu Sofia, com a convicção de quem nunca admite estar errada. — A máscara está linda — comentou Isabel, especialista em elogios estéticos. — Vais arrasar — disse Luís, que acreditava genuinamente em todos. — E se não arrasares, nós arrasamos por ti — brincou Duarte, sempre pronto para o caos. — É S. Valentim — acrescentou Vera. — É para celebrar o amor, mesmo que seja só o amor pela vida.
Miguel, mais discreto, sorriu.
— A tua irmã merece uma noite boa.
Lorena apertou a mão de Joana com a força de quem promete mundos e fundos.
— E eu vou dar-lha.
Joana respirou fundo. Aquele fundo que antecede decisões importantes, mudanças de vida… ou simplesmente uma noite que ela não pediu, mas que talvez precisasse.
E colocou a máscara. E depois, com mãos trêmulas mas decididas, vestiu o fato de fada e deixou que as asas se abrissem atrás de si, como se finalmente desse permissão ao mundo para a ver — mesmo que ninguém soubesse quem ela era.

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